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2024
Leste do Éden
Por
Antonio Gonçalves Filho

O título desta exposição, Leste do Éden, faz referência direta a um território bíblico chamado Nod, habitado por Caim após matar seu irmão Abel. Viver em Nod, a leste do Éden, seria, enfim, uma punição. Sem a abundância do paraíso perdido, restaria aos descendentes de Caim recriar a ordem e a harmonia do jardim edênico com todas as limitações humanas. Esse exílio, vale lembrar, rendeu clássicos da literatura, como East of Eden [A leste do Éden] (1952), de John Steinbeck, naturalmente sobre um conflito familiar.

Aqui, porém, trata-se de recuperar uma harmonia que se perdeu. Diante da violência do exílio, a resposta de três grandes pintores de diferentes épocas não foi a de buscar refúgio no passado. Antes, decidiram seguir em frente e criar um mundo próprio para sobreviver ao colapso do paraíso descrito no Antigo Testamento.

Por ordem de “aparecimento” no lado leste do Éden, o primeiro da lista é o pintor uruguaio Pedro Figari (1861–1938, Montevidéu, Uruguai), seguido pelo carioca Júlio Martins da Silva (1893, Icaraí, RJ – 1978, Rio de Janeiro, RJ) e o paulista Paulo Pasta (1959, Ariranha, SP), representados nestas duas mostras simultâneas das galerias Estação e Millan, com colaboração da Sur.

Os três pintores têm em comum esse sentimento de exílio, nítido nas paisagens transfiguradas da exposição, algumas vezes idílicas (caso das telas de Júlio Martins da Silva), outras vezes alegóricas (Pedro Figari) ou atmosféricas (Paulo Pasta). No mundo moderno e multifacetado, marcado pela fragmentação (especialmente a ambiental) há mais de um século, seria mesmo improvável que qualquer um deles sucumbisse à tentação de pintar paisagens naturalistas.

As paisagens de Figari e Pasta resultam de um olhar erudito, formado pela observação reverente das pinturas dos mestres. É conveniente lembrar que, nos anos 1930, em Paris, o pintor uruguaio foi amigo dos pós-impressionistas Bonnard e Vuillard e do fauvista Marquet. Sua pintura, que rememora a paisagem uruguaia no exílio, reflete o suficiente de cada um deles para atestar essa admiração.

Paulo Pasta, hoje também um mestre, começou sua carreira há exatos quarenta anos, pintando paisagens. Em sua primeira individual, expôs canaviais sob um céu tempestuoso, que seriam mais bem descritas como antipaisagens, um pouco no sentido consagrado por T.S. Eliot (em The Waste Land [A terra devastada]) para demolir a falsa dicotomia entre natureza e cultura. Em essência, a paisagem de Pasta vai na direção de Cézanne — busca primordialmente a luz, mesmo que ela se esconda sob nuvens escuras.

Pode parecer paradoxal que essa paisagem prenuncie uma tempestade ou mostre o confinamento no leste do Éden de forma tão sedutora e iluminada. Mas, por contraposição, não seria também esse o caso do jardim cultivado nas telas de Júlio Martins da Silva, um pintor sem instrução que aprendeu gramática para ler poesia? Em ambos os exemplos, trata-se de pintar aquilo que não está mais lá.

Júlio, neto de africanos escravizados e filho de analfabetos, nasceu em Icaraí, Niterói, foi criado na roça, morou num barraco e só virou pintor por necessidade de recriar o jardim do Éden. Uma missão assumida pelo luterano, obcecado pelo verbo evoluir (ele preferia “se aperfeiçoar”). E o fez com uma paisagem de casas que parecem templos, tudo dentro das mais absolutas ordem e simetria, coisas que só existem no além.

Se Figari buscou o cenário pastoral, virgiliano, dos pampas uruguaios na urbana Paris dos anos 1930, confrontando nas telas a violência modernizadora, Júlio escapou para o jardim onírico, inexistente, denunciando o preconceito interclassista que impedia (e ainda impede) os deserdados sociais de sonhar com “o mundo embrulhado para presente”. Aliás, foi esse o título que Pasta cunhou como curador de uma exposição do religioso Júlio na Galeria Estação, em 2012.

Já Pedro Figari, agnóstico, não via a extensão dos pampas uruguaios como um território sagrado. No entanto, Jorge Castillo, grande estudioso de sua obra, diz que Figari buscou nessa imensidão a “infinita beleza que as religiões prometem após a morte”. E talvez seja mesmo este o denominador comum entre os três artistas: resgatar a placidez edênica associada ao sono eterno. Ou à suspensão do tempo, como sugerem os postes ou as chaminés das usinas de cana na imensidão desértica das paisagens interioranas de Pasta.

Por vezes, Figari comentou o fiasco da racionalidade moderna ao se voltar para o mundo pré-histórico. Ele pintou “trogloditas” tocando flautas sob a lua, telas em que inexiste distinção entre mundo natural e sobrenatural. Nelas, tudo parece deformado, fora de lugar, como um esboço bonnardiano de seu credo panteísta nas formas vagas, imprecisas. Enfim, Figari pintou sensações. O ombú, símbolo monumental da paisagem dos pampas uruguaios, não parece só uma árvore em suas pinturas, mas uma entidade que sugere animismo.

É possível dizer o mesmo quando se vê uma árvore de Pasta: ela é o testemunho da passagem do tempo em seu mundo de silêncio e luz, um registro da serenidade do finito. Foi a pintura que ensinou Pasta a ver as coisas, a reatar sua ligação com um momento fundador da história humana. O Éden talvez não seja, enfim, um jardim repleto de canteiros arrumados como pintava o delicado Júlio, mas uma terra em que a natureza parece apenas reverberar nossa solidão e agonia. É disso que trata sua paisagem.